Eu tenho essa mania incômoda de fantasiar sem limites e isso me ajuda a encarar a realidade sempre que ela me desagrada, mas nem por isso fantasiar deixa de me ser incômodo. O engraçado é que, ainda assim, mantenho sempre meus pés no chão. A cabeça vai longe, longe… Ela parece desprender-se do resto do meu corpo, mas os pés continuam firmes no chão. Então, quando a puxo de volta, volto também ao lugar comum de sempre – suspiro. Às vezes eu choro, me revolto durante alguns poucos minutos de pranto e depois dou de ombros. Fazer o quê?!
Me perco nessas contradições óbvias, oh… E sou inconstante, reclamo da (falta de) atitude alheia quando, na verdade, sou eu quem desiste de agir. Simples, desisto e pronto. O que era meu maior sonho há meio minuto torna-se algo tão insignificante que passo a acreditar na minha própria falta de lucidez – que não chega a ser loucura, mas me faz escura. Nesse momento tudo perde o sentido e nada mais tem a importância de antes, a não ser minha capacidade de fantasiar.
Só que eu não aprendo! Ah, eu não aprendo… Vai passar e depois irá começar tudo novamente. O ciclo não se fecha, ou se fecha, sei lá, para em seguida recomeçar do mesmo ponto em que se encerrou. Me sinto tonta, até. Tento me apoiar em algo, o que quer que seja, qualquer coisa que me dê segurança, sem muito sucesso. Aliás, sem nenhum sucesso. E tudo gira, gira…
Quando as coisas parecem se firmar, vem o medo da decepção. Não da minha, essa já é velha companheira. As nossas fantasias não deveriam afetar os outros, huh? Mas infelizmente não sou eu quem dita as regras e, se fosse, aí sim tudo estaria perdido. É que ainda não consegui me encontrar.
Eu, um pássaro
Madrugada quente
Além da curva da estradaQuando era mais nova e todos os meus primos sonhavam acordados com a viagem em família para a Disneyland que se aproximava, eu costumava sentar na areia com as pernas cruzadas e ficar observando o mar da cidade onde morava enquanto perguntava a mim mesma: "Por que não aqui?". Eu não queria ir tão longe para poder fantasiar e nem precisava disso. Ali eu tinha meus peixes falantes, tele-caramujos e sereias com cabelos emaranhados. Por que não ali?
Mas quando crianças nós ainda não entendemos o sentido da fantasia, por mais que ela esteja presente em todos os dias da nossa infância. Hoje eu sei de sua importância e sei, também, que ela não se limita aos anos que ficaram para trás.
Então eu faço planos e vou caminhando lentamente – em frente – com receio do que existe após a curva. Se ainda fosse criança eu estaria mais fascinada do que amedrontada, afinal toda expectativa se resumiria ao encontro com príncipes encantados, fadas madrinhas e um lugar perfeito onde eu reinaria feliz para sempre. O fato é que não importa quão adulta eu seja, a fantasia ainda existe e é exatamente ela que me traz o temor, porque as chances de não encontrar uma fada madrinha que me apresente ao tal príncipe encantado com quem reinarei na felicidade eterna um lugar perfeito são muito grandes.
De qualquer forma, é preciso enfrentar a curva da estrada, já que retornar não é mais possível. Em razão disso optei por me concentrar no caminho, pois é onde estou agora. E é um caminho deveras real.
Além da curva da estrada
Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há
para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por hora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
(Fernando Pessoa)
Andrea Doria
Escrevendo no escuro
Feliz Dia dos NamoradosEu gosto muito da vista daqui.
Às vezes acendo um incenso, fico observando a vista e enquanto o aroma toma conta do quarto a noite cai, gelada mas confortante. Ninguém além de mim consegue enxergar essa paisagem, que substitui os arranha-céus com suas janelas iluminadas pela imagem das montanhas envoltas em neblina. É bonito, traz paz e poder criar sua própria paisagem proporciona uma certa sensação de liberdade.
Algumas pessoas entendem isso como fuga, que compreensão limitada… Não é que a realidade me desagrade, é que me sinto leve e assim posso ir além, afinal, o mundo é grande demais para nos mantermos presos ao mundo real.
Essa e outras vidas seriam mais agradáveis se todos criássemos nossas próprias paisagens. Vocês deveriam tentar, não há quem não seja capaz, há apenas quem nunca tenha parado para pensar sobre isso.
A vida é agora
Andrea Doria
Senhora do Tempo

