Mai
15
Chuva de Maio

Hoje o dia começou frio e chuvoso, um bom dia para voltar a escrever. É esse amontado de possibilidades que me inspira enquanto tudo é agonia, porém. Há meses eu havia prometido a mim mesma que faria tudo diferente, criei algumas regras e me comprometi a segui-las sem questionar. Besteira. Não nasci para seguir as regras. Não fui feita para seguir nada que não seja a vontade que tenho agora e o agora de antes já não existe. Também não posso ir além sem questionar, isso faria com que eu fincasse meus pés em um solo infértil que, confesso, eu desprezo. Mas o dia está gelado e essa chuva fina que quase não se percebe me faz sorrir, até mesmo rir do que foi planejado antes, porque não tenho poder algum sobre o tempo. Nem esse e nem aquele. Lá fora é apenas um clima, aqui dentro é o temporal.

 
 
© Beta de Felippe
 
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    Out
    28
    Andrea Doria

    "Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo o que achávamos tão certo, teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais, faríamos floresta do deserto e diamantes de pedaços de vidro. Mas percebo agora que o teu sorriso vem diferente, quase parecendo te ferir. Não queria te ver assim, quero a tua força como era antes. O que tens é só teu e de nada vale fugir e não sentir mais nada. (…)"

    É o que tenho dito já há algum tempo, essa coisa da ilusão que machuca. Que magôa, que destrói. A gente abraça o mundo e de repente descobre que não está abraçando nada além daquilo que nunca foi real. Esse mundo que antes estava em nosso poder, bem perto do coração, desaparece como se resumido a um punhado de cinzas que alguém lançou ao vento. Quem, não importa. O fato é que não se pode abraçar as cinzas, a não ser que você esteja queimando. E sorrir nesse momento é algo tão falso que chega a machucar, ofendendo a nossa própria inteligência, que então nos serve como uma espécie de beijo, aquele tipo de beijo que tira a princesa de seu sono encantado, com uma diferença notável: nada aqui é fantasia. Você acorda para o real e se enxerga como um ser tão fraco que prefere dar as costas para tudo o que criou até então, porque já não consegue diferenciar o que realmente faz parte da sua vida do que o que nunca fez.

    "(…) Às vezes parecia que era só improvisar e o mundo então seria um livro aberto – até chegar o dia em que tentamos ter demais, vendendo fácil o que não tinha preço. Eu sei é tudo sem sentido… Quero ter alguém com quem conversar, alguém que depois não use o que eu disse contra mim. Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui e com a minha própria lei. Tenho o que ficou e tenho sorte até demais, como sei que tens também."

    Mas a vida é isso aí, um jogo de sorte onde colocamos freqüentemente em risco a nossa sanidade. Não há segredos quando se faz uso da coragem, a gente arrisca e segue cambaleando ou não. A firmeza de cada passo sempre dependerá do quanto estamos dispostos a apostar nesse jogo que agora deixa a sorte de lado e se torna um jogo de azar. É nessa hora, exatamente nesse instante quase imperceptível, que tudo o que você fez e falou passa a te amedrontar. O que fazer, então?! Absolutamente nada além de aceitar a pessoa em quem você se transformou e o caminho que esse alguém optou por trilhar. Voltar atrás te faria cometer os mesmos erros, não se deixe enganar novamente pela tal da ilusão, porque isso não deixaria de acontecer. A única coisa real na ilusão é sua existência. Porém, ela não é o fim. Ela é, pelo contrário, o início de tudo. É quando você a descobre que tem a chance de viver de verdade e percebe que jamais será bom sentir-se infeliz, mas sempre é maravilhoso tê-lo sido.

    Andrea Doria – Legião Urbana

    Nota: O SS Andrea Doria foi um navio transatlântico italiano lançado ao mar em 1951. Foi assim batizado em homenagem ao almirante genovês Andrea Doria. Em 26 de julho de 1956, quando navegava rumo a New York, ao largo de Nantucket (Massachusetts – EUA), colidiu com o Stockholm, um navio de bandeira sueco-americana, vindo a naufragar. Transportando cerca de 1.200 passageiros e 500 tripulantes, foram resgatadas 1.660 pessoas. Cerca de 50 pessoas perderam a vida no desastre. Perderam-se ainda algumas obras de arte italianas.

     
     
    © Beta de Felippe
     
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    21
    Escrevendo no escuro

    Não costumo fazer isso, mas estou escrevendo no escuro. A única luz aqui é a de um abajur sem cúpula que encontrei no meio daquela minha bagunça organizada e repleta de coisas que não me servem mais, mas que fariam falta se delas eu me desfizesse. Por que insisto em sentir falta do que não cabe mais na minha vida, eu não sei. A lâmpada principal decidiu não funcionar mais no meu quarto, sem motivo aparente, já que funciona em todos os outros cômodos da casa. Talvez o problema não seja a lâmpada, mas sim o lugar onde me encontro agora.

    As sombras que surgem a partir da luz fraca me assustam, são formas estranhas que criam uma atmosfera sombria, isso me dá arrepios. Me encolho feito uma criança sozinha com medo do escuro, medo esse que não tive antes, sequer na infância eu o tinha. Nesse momento, porém, a solidão negra me toma de tal modo que nem todos os abraços possíveis me acolheriam. E nada do que é possível agora conseguiria afugentar essa sensação de vazio que quase me preenche.

    Mas não tem nada a ver com essas formas estranhas que enfeitam as paredes me cercando. Eu poderia resolver tudo isso fechando meus olhos e permanecendo assim até que a luz surgisse por si só, naturalmente, como sempre foi desde o início dos tempos. Eu poderia, mas não quero. Chega de falsas soluções, de falsas esperanças, de falsos planos. Chega de tudo que é falso, eu prefiro manter meus olhos abertos e enxergar a escuridão. O que me conforta agora é saber que sou capaz de escrever no escuro.

     
     
    © Beta de Felippe
     
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