Mar
25
Fragmentos

I
Minha alma fugiu. De repente enojou-se da selvageria desse mundo e então, quando dei por mim, ela já não estava mais aqui. Procurei com empenho, vasculhei cada canto, mas em vão. Minha alma não quer mais estar onde eu estou. Assim, vazia, debrucei-me na janela e fiquei observando a chuva. Os pensamentos estavam livres, mas não se manifestavam, porque nada aqui funciona direito sem minha alma. E essa chuva que não passa e esse meu corpo gelado (sou um cadáver, estou sem alma) e meus olhos lacrimejantes que podem ser comparados à vidraça por onde as gotas de chuva escorrem, tornam essa típica manhã fria de março ainda mais "nonsense". Sim, nada aqui tem sentido. Já não me reconheço, olho no espelho e só o que vejo é a figura de uma mulher estranha, trêmula. Espero que ela se arrependa e decida voltar, pois não consigo viver além de existir assim, sem alma.

II
Foi em uma dessas tardes chuvosas e convidativas à monotonia que ela se descobriu. O espelho, antes apenas mais um detalhe da decoração de sua imensa sala, passou a chamar-lhe à atenção. Minto. Não é isso. Não era o espelho, mas aquela imagem que ele refletia. Já não tinha os cachinhos negros, o olhar sereno, as sardas. Agora tudo se resumia a um furacão: os cabelos ruivos, os olhos misteriosos, a face enrugada. Nem tanto, exagero meu, pois ela se cuidava. Passou horas observando aquela em quem havia se transformado quase sem perceber. Então virou-se e caminhou sem pressa rumo à porta principal. Saiu. Deixou para trás um passado que vivera sem plenitude, para valorizar o presente do qual, no futuro, pretendia se orgulhar – o que talvez não aconteça, mas para quem se descobriu, isso não importa.

 
 
© Beta de Felippe
 
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    Mar
    23
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    Sentiu-se dividida entre a morte e a vida, então nasceu para dentro, onde não se comemora – a Páscoa não a revigora.

     
     
    © Beta de Felippe
     
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    Mar
    18
    Madrugada quente

    Está calor. E há algo que me incomoda no calor que não chega à compreensão alheia, que pouco tem a ver com o quente mas que queima de uma forma tão voraz que chego a ouvir os meus próprios pensamentos me falando com eloqüência sobre coisas que jamais existiriam se gelado fosse o meu coração. É a combinação perfeita de fascínio e medo, como se eu estivesse realmente diante de um fogo que no momento seguinte consumiria meu corpo em chamas – eu sei da dor, mas sua luminosidade é tanta que fica difícil resistir à tentação de me entregar, talvez até para que tudo fique mais claro. Padeço desejando o vento que pode tanto apagar quanto abrasar o meu receio.

    Na madrugada o calor é mais intenso, exatamente pela falta do sol. As horas demoram para passar mas nem as noto, mantenho-me concentrada em cada momento vão que conquistou tamanha importância capaz de me fazer colocar minha própria sanidade em jogo. Então eu me jogo, envolta nesse calor que vem da alma e que deveria me aquecer mas se mostra revoltado. Penso sem pressa, me perco dentro de mim para depois me encontrar ali naquele mesmo lugar de sempre que ainda não sei onde fica. É uma confusão de incertezas que se chocam como cavaleiros em uma batalha medieval – uma deve morrer para que a outra sobreviva, até que se depare com uma terceira e dessa vez talvez não tenha tanta força para vencer.

    Num copo d'água me embriago de uma refrescância que pouco dura. Está calor.

     
     
    © Beta de Felippe
     
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