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Archive for the ‘Viagens da Alma’ Category

Coisas do Destino

28 mar

Eu acredito no Destino, mas acredito no livre-arbítrio também. Costumo dizer que o Destino dá as cartas e quem joga sou eu. Sim, tenho jogado bastante ultimamente. Não sei no quê isso dará, mas tenho certeza de que sairei vencedora, de uma forma ou de outra. Quando se fala em Destino a tendência é acharmos que tudo está escrito, que somos uma espécie de marionete criada pelo tal Deus para seu próprio divertimento, porque Ele não deve ter nada melhor para fazer lá no céu ou onde quer que se encontre. Pois bem, creio que não seja nada disso.

Imagine: você acorda pela manhã e o sol está lá fora, sim, mas se você não abrir a janela e a cortina o seu quarto continuará escuro. Ou não. Você pode acender a luz e pronto.

A vida é assim, as coisas são colocadas ao nosso alcance e nós decidimos se as agarramos. O problema é que tudo que é bom a gente agarra com tanto cuidado, que às vezes acaba deixando escapar. Então, quando isso acontece, não adianta colocar a culpa no Destino. O vacilo terá sido seu.

 

Fragmentos

25 mar

I
Minha alma fugiu. De repente enojou-se da selvageria desse mundo e então, quando dei por mim, ela já não estava mais aqui. Procurei com empenho, vasculhei cada canto, mas em vão. Minha alma não quer mais estar onde eu estou. Assim, vazia, debrucei-me na janela e fiquei observando a chuva. Os pensamentos estavam livres, mas não se manifestavam, porque nada aqui funciona direito sem minha alma. E essa chuva que não passa e esse meu corpo gelado (sou um cadáver, estou sem alma) e meus olhos lacrimejantes que podem ser comparados à vidraça por onde as gotas de chuva escorrem, tornam essa típica manhã fria de março ainda mais “nonsense”. Sim, nada aqui tem sentido. Já não me reconheço, olho no espelho e só o que vejo é a figura de uma mulher estranha, trêmula. Espero que ela se arrependa e decida voltar, pois não consigo viver além de existir assim, sem alma.

II
Foi em uma dessas tardes chuvosas e convidativas à monotonia que ela se descobriu. O espelho, antes apenas mais um detalhe da decoração de sua imensa sala, passou a chamar-lhe à atenção. Minto. Não é isso. Não era o espelho, mas aquela imagem que ele refletia. Já não tinha os cachinhos negros, o olhar sereno, as sardas. Agora tudo se resumia a um furacão: os cabelos ruivos, os olhos misteriosos, a face enrugada. Nem tanto, exagero meu, pois ela se cuidava. Passou horas observando aquela em quem havia se transformado quase sem perceber. Então virou-se e caminhou sem pressa rumo à porta principal. Saiu. Deixou para trás um passado que vivera sem plenitude, para valorizar o presente do qual, no futuro, pretendia se orgulhar – o que talvez não aconteça, mas para quem se descobriu, isso não importa.

 

Madrugada quente

18 mar

Está calor. E há algo que me incomoda no calor que não chega à compreensão alheia, que pouco tem a ver com o quente mas que queima de uma forma tão voraz que chego a ouvir os meus próprios pensamentos me falando com eloqüência sobre coisas que jamais existiriam se gelado fosse o meu coração. É a combinação perfeita de fascínio e medo, como se eu estivesse realmente diante de um fogo que no momento seguinte consumiria meu corpo em chamas – eu sei da dor, mas sua luminosidade é tanta que fica difícil resistir à tentação de me entregar, talvez até para que tudo fique mais claro. Padeço desejando o vento que pode tanto apagar quanto abrasar o meu receio.

Na madrugada o calor é mais intenso, exatamente pela falta do sol. As horas demoram para passar mas nem as noto, mantenho-me concentrada em cada momento vão que conquistou tamanha importância capaz de me fazer colocar minha própria sanidade em jogo. Então eu me jogo, envolta nesse calor que vem da alma e que deveria me aquecer mas se mostra revoltado. Penso sem pressa, me perco dentro de mim para depois me encontrar ali naquele mesmo lugar de sempre que ainda não sei onde fica. É uma confusão de incertezas que se chocam como cavaleiros em uma batalha medieval – uma deve morrer para que a outra sobreviva, até que se depare com uma terceira e dessa vez talvez não tenha tanta força para vencer.

Num copo d’água me embriago de uma refrescância que pouco dura. Está calor.

 

Solidão

16 mar

Toda mulher quer ser amada. Toda mulher sabe que, por mais bem-sucedida que seja em outros fatores da vida, não estará totalmente realizada enquanto não for amada. Você acorda antes mesmo que o Sol, preenche seu dia com milhares de afazeres e, mesmo assim, se deita à noite com aquela impressão de que algo faltou… Às vezes faz isso acompanhada mas, no meio da madrugada, olha para o lado e se pergunta até que ponto aquela situação está lhe fazendo bem. Então, quando percebe que o que deseja de verdade é o sentimento e não apenas a sensação, tenta disfarçar e esconder o rosto, para que a lágrima rolando não seja notada. E não adianta negar, mentir para si mesma, porque nada substitui o amor. Pelo contrário; quanto mais ele faz falta, mais você tem certeza de que trocaria qualquer coisa (ou tudo) por ele. Cuidado com a solidão. Pior é sentir-se sozinha mesmo quando não se está.

 

Você tinha tempo, mas já não importa.

14 mar

[antes]

Você podia ter feito tudo quando tinha tempo. Você devia ter feito tudo enquanto era tempo. Daz vezes em que me disse tudo aquilo que eu quis ouvir, restou apenas o desejo de permanecer em silêncio. É engraçado, você entende, essa coisa quase surreal do saber sem nunca ter aprendido e a vontade imensamente louca de jamais desviar o olhar ainda que com medo de encarar. Mas você podia ter feito tudo quando tinha tempo, quando as horas não passavam assim tão rápido, quando os dias eram calmos e as tempestades serviam apenas para afugentar a calmaria do momento e atrair minha inspiração e preceder a bonança. Era isso, olha só – era e já não o temos mais. Ainda assim, você podia ter feito tudo quando tinha tempo, mas não fez. Sabe por quê? Exatamente porque você tinha tempo.

[depois]

Acho que todos nós, seja em um momento ou outro da vida, passamos por uma (ou mais de uma) fase em que todo e qualquer desejo passa a ter prazo de validade. Essa fase pode durar muito ou não, nem é essa a questão, mas o fato é que ela incomoda. Ao menos está me incomodando agora.

Confesso que eu queria desejar mais os meus desejos nesse instante. Talvez eu tenha desaprendido a ver a beleza de certas coisas – não, acho que não. Talvez eu tenha optado por uma cegueira momentânea, sem perceber, porque o que tanta gente me diz ser tão belo eu não consigo enxergar. Azar o meu que permanecerei aqui coçando os olhos e chacoalhando minha própria cabeça na intenção de organizar idéias que me fizeram muito feliz quando surgiram, mas que então já fazem parte daquele amontoado de idéias que desisti de colocar em prática por uma simples razão: elas não me atraem mais.

E será que eu sou mesmo esse ser inconstante ou apenas estou? Essa é a única pergunta para a qual eu realmente gostaria de encontrar uma resposta agora, mas tudo bem. Daqui a dois minutos ela não terá mais a menor importância mesmo.

 

Quem sabe ainda sou uma garotinha

01 mar

É tão mais fácil ser uma garotinha! Eu penso nisso sempre, me preocupo em lembrar-me disso sempre, mesmo não encarando a maturidade como algo que machuca. Eu consigo fugir de mim quando vou de encontro àquela que eu fui e, pasmem, também consigo voltar segura e consciente quando bem quero – ou preciso. Ser uma garotinha não me impede de ser mulher, apenas faz de mim a combinação de tudo o que necessito para realmente ser.

Sim, eu sou agora porque já fui.

Mas há momentos na vida em que a gente não pode ser uma garotinha, momentos esses em que é preciso agir como mulher e confesso ser isso o que me incomoda: a obrigação. Quero poder escolher quando ser adulta ou não, é um direito que eu gostaria de possuir e que me fosse dado sem questionamentos, assim como toda criança deveria ter direito a saúde e educação. Não é assim que funciona, eu sei.

Então eu fico aqui revoltada com as regras impostas por quem eu desconheço, emburrada, irritadiça – faço bico. Posso até mesmo ser chamada de infantil no momento exato em que esperam de mim uma reação oposta. E, se eu quero ser apenas uma garotinha, isso não significa que não desejo que esperem o que quer que seja de mim?! Ah, mas é claro, de nada importa a minha vontade agora, porque é hora de ser mulher.

 

Mais uma vez

28 fev

“Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno ao meu pescoço, uma voz que cante baixo e pareça querer me fazer chorar. Eu quero um calor no inverno, um extravio morno de minha consciência e depois sem som, um sonho calmo, um espaço enorme, como a lua rodando entre as estrelas…” (Fernando Pessoa)

Mais uma vez chegou a noite e aqui estou, perdida entre pensamentos e a indignação comigo mesma, por não ter realizado aquilo que planejei. Mais uma vez a vida me assustou e me senti indefesa, como uma criança que se perde em meio à multidão – então senta em um canto qualquer e chora, assim, desesperadamente. Mais uma vez tive que exorcizar meus fantasmas, aqueles com os quais quase me acostumei, justamente por estarem sempre dentro de mim. Mas eles sempre voltam e, mais uma vez, ele voltaram.

O mundo quer me abraçar, me dar colo, mas eu fujo. É uma fuga injusta, tanto para quem precisa de proteção quanto para quem quer proteger. Eu sou injusta, sempre fui, não irei mudar. Eu sei, eu sinto. Parece que está tudo predestinado quando, na verdade, não está. Apenas é mais fácil pensar assim, aceitar que o destino está escrito e eu não tenho uma borracha por perto. Também não quero ir à busca de uma, isso me cansaria. Não quero me cansar. Como um clichè, tenho me cansado demais.

Enquanto lá fora tudo ocorre, aqui dentro nada acontece. Só os fantasmas, indo e vindo, como as ondas de um mar revolto em pleno verão. Mas, fora isso, nada acontece. Amanhã estarei de ressaca sem ter me embriagado, o que é ainda pior. Pudera eu me afogar naquele mesmo mar, permanecer submersa e inconsciente. Não dá. Sou consciente até demais. E sempre haverá alguém disposto a me salvar – só que eu não quero ser salva. Me deixem assim, nem lá nem cá, nem longe nem perto. Porque, mais uma vez, chegou a noite e eu fui embora.

(do fundo do baú)

 

Sobre cavalos

26 fev

Que o ser humano deveria tornar-se um ser mais humano todos sabemos, mas não é sobre a humanidade que quero falar agora – quero falar sobre cavalos. Volte alguns séculos no tempo, como tenho feito ultimamente ao prestar mais atenção à minha coleção de DVDs épicos, e repare que muitas vezes no dia a dia nós nos assemelhamos aos cavalos. Enquanto reis se esforçavam para manter o poder sobre seus reinos e cavaleiros travavam batalhas mortais para defender os interesses dos próprios reis, qual era o papel dos cavalos em relação às guerras? Eram criados e adestrados com apenas um intuito: servir. Se um cavalo era ferido em batalha era também, e consequentemente, sacrificado; não para evitar seu sofrimento, mas sim porque já não tinha mais serventia. Ninguém sentia dó ao matar um cavalo, até porque atingindo o animal tornava-se mais fácil fazer o mesmo com o inimigo.

Percebem? Nós somos cavalos. Vivemos uma guerra diária, onde a disputa de poderes nos divide em dois grupos: os úteis e os inúteis. Você pode ter a certeza absoluta de que é importante e, no momento seguinte, descobre que já não passa de algo sem utilidade que será sacrificado para que não atrapalhe. E, o mais triste, é que estamos em pleno século XXI, mas ainda somos cavalos.

 
 

A volta do Alma em Punho

25 fev

Uma fala de vida e a outra de morte, indo além:

1)

Sabe, a vida não é tão difícil assim.

Você pode sair pela manhã vestindo sua calça listrada e calçando seu chinelo de dedo sem receio, depois voltar à noite com a blusa de linho amarrotada e com os cabelos despenteados sem medo da imagem que encontrará ao se observar no espelho. A vida é simples, todos irão reparar mas ninguém irá se importar, é isso mesmo, você pode ser quem é ainda que não saiba ao certo.

Não, não me fale de cultura ou de intelectuais que passam seus dias iguais lendo Nietzsche e filosofando sozinhos sobre a importância de Deus em suas existências medíocres. Eles são contraditórios, eles não podem crêr em Deus e em Nietzsche ao mesmo tempo e, se pudessem, talvez seus dias não fossem tão monótonos assim. Preocupe-se apenas com o seu saber. Não importa a quantidade de coisas que se sabe, mas sim o quanto elas nos são úteis.

Se expresse, você não precisa traduzir, apenas se fazer entender. Manter seus sentimentos escondidos dentro de si mesmo é desperdício – não faça isso com você. Nem com o resto do mundo, que ainda não aprendeu a enxergar o que quase sempre está bem diante de seus olhos. Há conforto em tudo o que você compartilha, até na tristeza; é a magia da matemática que faz, neste caso, a divisão resultar em subtração.

Vá além, não se contente com o lugar comum. Haverá muita descoberta pelo caminho se você não se concentrar apenas em seu caminhar. E quando chegar ao seu destino, faça logo sua escolha, antes que se esgotem as opções. Então, quando até as coisas mínimas ganharem importância, você poderá sair pela manhã vestindo sua calça listrada e calçando seu chinelo de dedo sem receio…


2)

Confesso que estava desmotivada, eu precisava que algo grandioso acontecesse para que eu pudesse voltar a escrever. E a ler também. Pois então, algo aconteceu. Algo aconteceu e me puxou de volta para uma realidade onde lidos e escritos jamais conseguiram me fazer permanecer – oh, que contraditório! Esse é um dos efeitos causados pela morte na minha vida: um turbilhão de sensações que se chocam e resultam em atitudes e pensamentos contraditórios. E entender para quê? Como dizia Lispector, viver ultrapassa o entendimento. Isso vale também para a morte. E sua dor.

A maior dor que noto, na presença da morte, é aquela envolta em egoísmo. Não se chora pela dor de quem morre, mas sim pela de quem vive e terá que, dali em diante, enfrentar a vida na companhia da saudade. Choramos pela nossa própria dor. São lágrimas egoístas sim, mas não as condeno – já as deixei escorrer. Muitos têm a compreensão da morte, o entendimento que conforta ao pensarmos nessa transição de uma dimensão para outra, mas isso não engloba necessariamente a aceitação.

Eu tenho uma boa relação com a morte, me sinto à vontade com ela. Diria até que amo tanto a morte quanto a vida, nessa mesma intensidade, que chega a assustar o alheio, tamanha é. Tenho também uma certa curiosidade que se mistura ao fascínio, sem pressa, é verdade, mas ainda assim é uma vontade imensa de desvendar mistérios que de repente se transformarão em segredo algum. Medo? Nenhum.

Sinto medo é de, um dia quem sabe, não poder mais ler o que escrevo agora. Por um motivo ou outro, não importa. Talvez eu tenha me precipitado, talvez eu sinta medo da morte sim, mas não da morte física. Pode ser que a falta daquilo que está ao meu alcance nesse exato momento me amedronte – mas não quero pensar nisso agora. Sabemos todos que a morte é apenas o final que sofreu uma mutação para se tornar início. É hora do recomeço, então.