Archive for the ‘Contos’ Category

O último dia

agosto 27th, 2009 by Beta | 5 Comments | Filed in Contos

- Hoje será nosso último dia juntos. Não quero mais ver você. – ele disse.

E ela o beijou. Beijou-o como nunca, com tanta vontade que seus lábios chegaram a tremer. Se entregou naquele instante e sem vacilar, sabia que ele falara sério e nunca mais poderia tê-lo em seus braços novamente, por isso o apertou com força. Seu olhar encontrou o dele e ali permaneceu por algum tempo, ou muito tempo – ela não contou – então teve a sensação de ter enxergado sua alma. Entre um gemido e outro ela confessou seus mais nobres sentimentos por ele, mesmo sem saber da reciprocidade. Oras, eles nunca mais se veriam – por que não viver aquele momento intensamente? Por que não fazer amor com ele ao menos uma vez, já que todo o sexo que fizeram até então não fora suficiente para satisfazer seus anseios de mulher?

Era sua última oportunidade, aquele seria o último dia. Então ela se abriu, de todas as maneiras possíveis e desejáveis. Não podia voltar atrás, fazer tudo de forma diferente, por isso fez tudo o que pôde no tempo que lhe restara. Deitada na cama, ainda nua, observou-o se vestir quase sem piscar. Ele arrumou suas coisas, se encarou no espelho ajeitando os cabelos e depois voltou-se para ela sorrindo, sem dizer uma palavra sequer – saiu. Sobre a penteadeira, apenas um bilhete escrito às pressas por aquele que poderia ter sido o homem de sua vida. Mesmo que as lágrimas atrapalhassem um pouco, ela trancou a porta por onde ele acabara de sair e pôs-se a ler.

Você me presenteou com a cumplicidade. Fui sincero ao dizer que não queria mais ver você. Então a conheci; e me surpreendi. Até amanhã.

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Fusão

abril 1st, 2008 by Beta | No Comments | Filed in Contos

Cada vez que ele tentava beijá-la, ela recuava e depois lhe provocava ainda mais, olhando fixamente em seus olhos enquanto contornava a boca entreaberta com a língua. Ele sorriu, encostou no batente da porta e deixou que ela caminhasse até a cama, para depois se deitar de costas, fazendo com que o corpo dele todo tremesse ao reparar em cada curva do dela ali, à mostra. Não demorou muito para que ela começasse a se tocar, agora mantinha os olhos fechados enquanto acariciava com calma o próprio pescoço, descendo a mão para o colo e logo em seguida para o meio dos seios firmes e de bicos duros que pareciam convidá-lo para tocar-lhes também. Se sentiu tentado, mas não se mexeu, continuou observando cada movimento do corpo dela, que agora se contorcia todo enquanto ela levava a outra mão para entre as coxas, soltando um leve gemido ao encontrar a carne úmida e ao mesmo tempo quente. Abriu os olhos devagar, encarou-o de um modo tão sexy que dessa vez ele não resistiu.

Colocando-se sobre ela, pôde sentir seu coração batendo acelerado próximo ao dele. Sentiu também o perfume discreto em sua pele, que combinava perfeitamente com o cheiro de seus cabelos, confundindo-se com os pêlos do peito dele. Afastou então seus cabelos com o nariz, para poder roçar seus lábios na orelha dela, sussurrando confissões de excitação. Beijou-a na boca. Foi um beijo molhado, com vontade e demorado, que depois percorreu-lhe todo o caminho do queixo até o umbigo, entre mordidinhas, lambidas e gemidos. Chegou a uma das coxas e a apertou com força, o que fez com que ela afastasse a outra com um movimento automático. Com a boca entre as pernas dela, sentiu seu gosto doce e explorou-a com a língua firme. Ela segurou sua cabeça e, apoiando as duas pernas na cama, forçou-a contra seu corpo, fazendo com que o dele latejasse de desejo ao senti-la molhada. Voltou à sua boca, para beijá-la dessa vez com serenidade. Sentiu seu abraço forte, depois apenas as pontas de seus dedos percorrendo-lhe toda as costas, então segurou seus pulsos e repousou seus braços ao lado do corpo, forçando o seu contra o dela, encaixando-os naturalmente. Segurou a ponta da orelha dela com os dentes, deixando escapar um gemido a cada vez em que ambos mexiam as cinturas, um sentindo o corpo do outro: o dele latejava, rijo, enquanto o dela quente e molhado sugava-o cada vez mais. Soltando suas mãos das dele, segurou-o pelo cabelo e fez com que descesse a boca até um dos seios, sentiu sua língua contornando o bico e isso fez com que ela aumentasse a velocidade dos movimentos, agora cruzando as pernas e se entregando ainda mais. Envolvido naquele clima de desejo incontrolável, ele tentou se segurar para prolongar o momento, mas só conseguiu até que ela estremeceu e gemeu alto – então sentiu que ia explodir dentro dela. Os corpos encaixados, movimentando-se até então incessantemente, aos poucos foram se acalmando. Com a respiração mais amena, ele a encarou sorrindo e voltou a beijá-la, desatento ao tempo. Ela, por sua vez, acariciou seus cabelos com ternura e assim adormeceram, ainda como se fossem um só.

O dia amanheceu quente, ela tentou encontrá-lo na cama sem sucesso. Talvez ele estivesse no banho. Pela fresta da janela, pôde ver os pássaros que se reuniam nos galhos da laranjeira no jardim. Pensou em depois comentar com ele como tudo parecia tão perfeito, mas poderia estar sendo boba demais e ele provavelmente não acharia graça em seu romantismo. Levantou-se na intenção de preparar-lhe o café, mas foi surpreendida pela bandeja já ao lado da cama. Ele entrou no quarto com uma timidez que ela desconhecia, ajoelhou-se aos seus pés e ficou observando-a se deparar com o objeto entre a xícara de leite e uma rosa. Quase sem acreditar, ela sentiu uma lágrima rolando quando ele abriu com cuidado a caixinha e lhe ofereceu a aliança. Descobriu, então, que não apenas seus corpos formavam a combinação perfeita – suas almas também.

Fragmentos

março 25th, 2008 by Beta | No Comments | Filed in Contos, Viagens da Alma

I
Minha alma fugiu. De repente enojou-se da selvageria desse mundo e então, quando dei por mim, ela já não estava mais aqui. Procurei com empenho, vasculhei cada canto, mas em vão. Minha alma não quer mais estar onde eu estou. Assim, vazia, debrucei-me na janela e fiquei observando a chuva. Os pensamentos estavam livres, mas não se manifestavam, porque nada aqui funciona direito sem minha alma. E essa chuva que não passa e esse meu corpo gelado (sou um cadáver, estou sem alma) e meus olhos lacrimejantes que podem ser comparados à vidraça por onde as gotas de chuva escorrem, tornam essa típica manhã fria de março ainda mais “nonsense”. Sim, nada aqui tem sentido. Já não me reconheço, olho no espelho e só o que vejo é a figura de uma mulher estranha, trêmula. Espero que ela se arrependa e decida voltar, pois não consigo viver além de existir assim, sem alma.

II
Foi em uma dessas tardes chuvosas e convidativas à monotonia que ela se descobriu. O espelho, antes apenas mais um detalhe da decoração de sua imensa sala, passou a chamar-lhe à atenção. Minto. Não é isso. Não era o espelho, mas aquela imagem que ele refletia. Já não tinha os cachinhos negros, o olhar sereno, as sardas. Agora tudo se resumia a um furacão: os cabelos ruivos, os olhos misteriosos, a face enrugada. Nem tanto, exagero meu, pois ela se cuidava. Passou horas observando aquela em quem havia se transformado quase sem perceber. Então virou-se e caminhou sem pressa rumo à porta principal. Saiu. Deixou para trás um passado que vivera sem plenitude, para valorizar o presente do qual, no futuro, pretendia se orgulhar – o que talvez não aconteça, mas para quem se descobriu, isso não importa.

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