- Hoje será nosso último dia juntos. Não quero mais ver você. – ele disse.
E ela o beijou. Beijou-o como nunca, com tanta vontade que seus lábios chegaram a tremer. Se entregou naquele instante e sem vacilar, sabia que ele falara sério e nunca mais poderia tê-lo em seus braços novamente, por isso o apertou com força. Seu olhar encontrou o dele e ali permaneceu por algum tempo, ou muito tempo – ela não contou – então teve a sensação de ter enxergado sua alma. Entre um gemido e outro ela confessou seus mais nobres sentimentos por ele, mesmo sem saber da reciprocidade. Oras, eles nunca mais se veriam – por que não viver aquele momento intensamente? Por que não fazer amor com ele ao menos uma vez, já que todo o sexo que fizeram até então não fora suficiente para satisfazer seus anseios de mulher?
Era sua última oportunidade, aquele seria o último dia. Então ela se abriu, de todas as maneiras possíveis e desejáveis. Não podia voltar atrás, fazer tudo de forma diferente, por isso fez tudo o que pôde no tempo que lhe restara. Deitada na cama, ainda nua, observou-o se vestir quase sem piscar. Ele arrumou suas coisas, se encarou no espelho ajeitando os cabelos e depois voltou-se para ela sorrindo, sem dizer uma palavra sequer – saiu. Sobre a penteadeira, apenas um bilhete escrito às pressas por aquele que poderia ter sido o homem de sua vida. Mesmo que as lágrimas atrapalhassem um pouco, ela trancou a porta por onde ele acabara de sair e pôs-se a ler.
“Você me presenteou com a cumplicidade. Fui sincero ao dizer que não queria mais ver você. Então a conheci; e me surpreendi. Até amanhã.“
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