Set
11
Eu, um pássaro

Acordo diariamente ouvindo o cantar dos pássaros empoleirados nas árvores que rodeiam minha casa, salvo os dias de chuva. Não acordo necessariamente de manhã, pelo contrário, geralmente é madrugada ainda quando abro a janela e tento, sem sucesso, observá-los em meio à escuridão. E aquilo me parece uma sinfonia que homenageia o nascer do sol – é muito agradável.

Temos o costume de alimentar os pássaros e eles praticamente já se tornaram parte da família. Minha mãe sempre deixa um pote com arroz e outro com água no quintal e os reabastece ao longo do dia porque, se não fizer isso, eles voam direto para dentro da cozinha sem o menor receio e se alimentam do que na verdade é a comida da cadela. Em razão disso, mantemos a porta quase sempre fechada, já que minha avó tem medo de qualquer coisa que voe e é capaz de ter um ataque cardíaco se um pássaro sobrevoar sua cabeça enquanto ela prepara seu café.

Somos três mulheres (quatro, se contarmos a cadela) vivendo em uma das poucas casas que ainda restam em São Paulo. Para ser sincera, a única coisa que me faz lembrar que moro nessa selva de pedra é o barulho absurdo do Aeroporto de Congonhas, que fica a poucos metros dessa mesma janela de onde não consigo enxergar os pássaros cantantes nas primeiras horas do dia. E assim é, o canto dos pássaros misturado ao som das turbinas dos aviões que pousam em e decolam de Congonhas. Durante anos achei essa combinação muito estranha, hoje o costume me conforta.

Por que estou escrevendo sobre isso? Porque ultimamente é assim que venho me sentindo: um pássaro que a grande maioria ignorante pensa poder bater asas e voar para longe mas que, na realidade, sabe que longe daqui não sobreviveria por muito tempo, porque é aqui onde está sua segurança. Sim, sabe, mas… Não sendo eu dona de todo o saber, posso estar errada. E essa dúvida é que me faz abrir a janela todos os dias e prestar atenção ao cantar dos pássaros, enquanto me indago: seria eu capaz de cantar assim longe daqui?

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© Beta de Felippe

 
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    8 comentários no post “Eu, um pássaro”

    gravatar Lorena D.
     11/09/2008 às 5:08 pm horas.
     recadodeguardanapo.blogspot.com

    Tô frequentadora assídua do seu blog. Descobri por acaso e fique fã, adoro seus textos. Parabéns!


    gravatar Sil
     11/09/2008 às 5:30 pm horas.
     

    Aiiii que fooofo!!!!
    Lindo isso!!!!

    Beijos fiota


    gravatar Nina
     12/09/2008 às 8:12 am horas.
     meticulosamente.blogspot.com

    Primeira vez que ca venho mas ja li grande parte dos textos e amei.
    Vou voltar.
    Bjhos


    gravatar Yvonne
     12/09/2008 às 4:44 pm horas.
     bloggente.blogspot.com

    Roberta, se você consegue cantar próximo à sua casa, provavelmente vai saber em outro local. Basta ter o canto dentro de si querida. Você vai longe.
    Beijocas


    gravatar Wellington
     14/09/2008 às 9:01 pm horas.
     wellingtondemelo.com.br

    Essa casa em que você vive deve ser no mínimo onírica. Caminha a um ritmo diferente do resto da cidade. Para mim, casas são seres mitológicos…


    gravatar Tary
     18/09/2008 às 8:09 pm horas.
     diasdebrinquedo.blogspot.com

    Roberta, tudo bom?
    Adorei o blog, encontrei em suas palavras reflexões que há tempos venho fazendo.
    No fundo, somos todos pássaros, queremos a liberdade, o vôo… Muitas vezes precisamos escolher entre ir ou ficar; outras, podemos ir e depois voltar…
    Espero que você tome as decisões certas e desejo que seu canto a acompanhe aonde seus caminhos (ou suas asas) a levarem…
    Beijos!


    gravatar ediney
     24/09/2008 às 9:55 am horas.
     edineysantana.zip.net

    Feliz dos pardais que não cantam e nunca vão conhecer prisão alguma, nem as do nosso encanto e nem as das nossas tristezas


    gravatar Mariany Carvalho
     05/10/2008 às 6:14 pm horas.
     subitossuspiros.blogspot.com

    Olá Roberta! Gostei muito do seu texto, mas sobretudo da forma como escreve.

    Um abraço!



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