Acordo diariamente ouvindo o cantar dos pássaros empoleirados nas árvores que rodeiam minha casa, salvo os dias de chuva. Não acordo necessariamente de manhã, pelo contrário, geralmente é madrugada ainda quando abro a janela e tento, sem sucesso, observá-los em meio à escuridão. E aquilo me parece uma sinfonia que homenageia o nascer do sol – é muito agradável.
Temos o costume de alimentar os pássaros e eles praticamente já se tornaram parte da família. Minha mãe sempre deixa um pote com arroz e outro com água no quintal e os reabastece ao longo do dia porque, se não fizer isso, eles voam direto para dentro da cozinha sem o menor receio e se alimentam do que na verdade é a comida da cadela. Em razão disso, mantemos a porta quase sempre fechada, já que minha avó tem medo de qualquer coisa que voe e é capaz de ter um ataque cardíaco se um pássaro sobrevoar sua cabeça enquanto ela prepara seu café.
Somos três mulheres (quatro, se contarmos a cadela) vivendo em uma das poucas casas que ainda restam em São Paulo. Para ser sincera, a única coisa que me faz lembrar que moro nessa selva de pedra é o barulho absurdo do Aeroporto de Congonhas, que fica a poucos metros dessa mesma janela de onde não consigo enxergar os pássaros cantantes nas primeiras horas do dia. E assim é, o canto dos pássaros misturado ao som das turbinas dos aviões que pousam em e decolam de Congonhas. Durante anos achei essa combinação muito estranha, hoje o costume me conforta.
Por que estou escrevendo sobre isso? Porque ultimamente é assim que venho me sentindo: um pássaro que a grande maioria ignorante pensa poder bater asas e voar para longe mas que, na realidade, sabe que longe daqui não sobreviveria por muito tempo, porque é aqui onde está sua segurança. Sim, sabe, mas… Não sendo eu dona de todo o saber, posso estar errada. E essa dúvida é que me faz abrir a janela todos os dias e prestar atenção ao cantar dos pássaros, enquanto me indago: seria eu capaz de cantar assim longe daqui?
Escreva Roberta, escreva…
As nossas paisagens
Você tinha tempo, mas já não importa.
Primeira vez que ca venho mas ja li grande parte dos textos e amei.
Vou voltar.
Bjhos
Roberta, se você consegue cantar próximo à sua casa, provavelmente vai saber em outro local. Basta ter o canto dentro de si querida. Você vai longe.
Beijocas
Essa casa em que você vive deve ser no mínimo onírica. Caminha a um ritmo diferente do resto da cidade. Para mim, casas são seres mitológicos…
Roberta, tudo bom?
Adorei o blog, encontrei em suas palavras reflexões que há tempos venho fazendo.
No fundo, somos todos pássaros, queremos a liberdade, o vôo… Muitas vezes precisamos escolher entre ir ou ficar; outras, podemos ir e depois voltar…
Espero que você tome as decisões certas e desejo que seu canto a acompanhe aonde seus caminhos (ou suas asas) a levarem…
Beijos!
Feliz dos pardais que não cantam e nunca vão conhecer prisão alguma, nem as do nosso encanto e nem as das nossas tristezas
Olá Roberta! Gostei muito do seu texto, mas sobretudo da forma como escreve.
Um abraço!

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Sil
11/09/2008 às 5:30 pm horas.

Tô frequentadora assídua do seu blog. Descobri por acaso e fique fã, adoro seus textos. Parabéns!