Acordo diariamente ouvindo o cantar dos pássaros empoleirados nas árvores que rodeiam minha casa, salvo os dias de chuva. Não acordo necessariamente de manhã, pelo contrário, geralmente é madrugada ainda quando abro a janela e tento, sem sucesso, observá-los em meio à escuridão. E aquilo me parece uma sinfonia que homenageia o nascer do sol – é muito agradável.
Temos o costume de alimentar os pássaros e eles praticamente já se tornaram parte da família. Minha mãe sempre deixa um pote com arroz e outro com água no quintal e os reabastece ao longo do dia porque, se não fizer isso, eles voam direto para dentro da cozinha sem o menor receio e se alimentam do que na verdade é a comida da cadela. Em razão disso, mantemos a porta quase sempre fechada, já que minha avó tem medo de qualquer coisa que voe e é capaz de ter um ataque cardíaco se um pássaro sobrevoar sua cabeça enquanto ela prepara seu café.
Somos três mulheres (quatro, se contarmos a cadela) vivendo em uma das poucas casas que ainda restam em São Paulo. Para ser sincera, a única coisa que me faz lembrar que moro nessa selva de pedra é o barulho absurdo do Aeroporto de Congonhas, que fica a poucos metros dessa mesma janela de onde não consigo enxergar os pássaros cantantes nas primeiras horas do dia. E assim é, o canto dos pássaros misturado ao som das turbinas dos aviões que pousam em e decolam de Congonhas. Durante anos achei essa combinação muito estranha, hoje o costume me conforta.
Por que estou escrevendo sobre isso? Porque ultimamente é assim que venho me sentindo: um pássaro que a grande maioria ignorante pensa poder bater asas e voar para longe mas que, na realidade, sabe que longe daqui não sobreviveria por muito tempo, porque é aqui onde está sua segurança. Sim, sabe, mas… Não sendo eu dona de todo o saber, posso estar errada. E essa dúvida é que me faz abrir a janela todos os dias e prestar atenção ao cantar dos pássaros, enquanto me indago: seria eu capaz de cantar assim longe daqui?