Está calor. E há algo que me incomoda no calor que não chega à compreensão alheia, que pouco tem a ver com o quente mas que queima de uma forma tão voraz que chego a ouvir os meus próprios pensamentos me falando com eloqüência sobre coisas que jamais existiriam se gelado fosse o meu coração. É a combinação perfeita de fascínio e medo, como se eu estivesse realmente diante de um fogo que no momento seguinte consumiria meu corpo em chamas – eu sei da dor, mas sua luminosidade é tanta que fica difícil resistir à tentação de me entregar, talvez até para que tudo fique mais claro. Padeço desejando o vento que pode tanto apagar quanto abrasar o meu receio.
Na madrugada o calor é mais intenso, exatamente pela falta do sol. As horas demoram para passar mas nem as noto, mantenho-me concentrada em cada momento vão que conquistou tamanha importância capaz de me fazer colocar minha própria sanidade em jogo. Então eu me jogo, envolta nesse calor que vem da alma e que deveria me aquecer mas se mostra revoltado. Penso sem pressa, me perco dentro de mim para depois me encontrar ali naquele mesmo lugar de sempre que ainda não sei onde fica. É uma confusão de incertezas que se chocam como cavaleiros em uma batalha medieval – uma deve morrer para que a outra sobreviva, até que se depare com uma terceira e dessa vez talvez não tenha tanta força para vencer.
Num copo d’água me embriago de uma refrescância que pouco dura. Está calor.