Archive for março, 2008

Senhora do Tempo

março 31st, 2008 by Beta | No Comments | Filed in Viagens da Alma

Se eu fosse Senhora do Tempo, as horas não passariam tão devagar como estão passando agora, nem passariam tão depressa como aconteceu antes. Elas teriam sua certa duração, de acordo com a minha vontade. Poderiam até mesmo parar no instante em que eu desejasse, sob a influência de um estalar de dedos, dos meus dedos, esses mesmos que escrevem agora para eternizar aquilo que, de outra forma, ficaria apenas na lembrança. Se eu fosse Senhora do Tempo, o passado não seria fixo, não seria imutável e talvez sequer fosse passado. Eu poderia conjugar os verbos no tempo que eu bem quisesse (afinal, eu seria sua Senhora) e não precisaria esperar por um futuro que quero viver agora. Não, eu não precisaria nemmesmo esperar. Se eu fosse Senhora do Tempo, aquele momento se repetiria por muitas, muitas e muitas outras vezes. Eu o prolongaria, brincaria com ele como uma criança, sem pressa, sem compromisso.

Depois de reviver as sensações, cada uma delas, por quantas vezes eu sentisse vontade, eu colocaria o tempo em suas mãos. Seus dedos estariam sobre o relógio e você poderia brincar de ser Deus. Então, o que você faria? Teria coragem o suficiente para apressar as coisas, pular etapas, dar um salto maior do que é capaz agora? Ou moveria os ponteiros ao contrário, para assim poder fazer tudo de forma diferente? Enfim… Se eu fosse Senhora do Tempo, não estaria fazendo tais perguntas. Eu teria todas as respostas sem precisar perguntar.

Mas o tempo é real e é cruel, ele finge não passar nunca ou passa rápido demais e esses movimentos nunca estão de acordo com a nossa vontade. Nem com a minha, nem com a sua. Então, enquanto fico aqui pensando no Tempo como se sua Senhora eu fosse, ele insiste em provar que me bastaria ser Senhora de Mim.

Eu só quis dizer…

março 30th, 2008 by Beta | No Comments | Filed in Viagens da Alma

Fiquei imaginando quantas vezes você já chorou sozinho, com o rosto escondido pelo travesseiro. Desejei estar ao seu lado em todas elas, passar um pouco da minha segurança, envolvê-lo em meus braços da forma mais confortante possível. Busquei sem que você notasse seu olhar inocente e só o que encontrei foi um semblante agoniado. Como quem nada espera em troca, enviei as melhores energias que pude e cheguei a adormecer, para não sei quanto tempo depois acordar com a sensação de estar ao seu lado. Não estava.

Ou será que estava? Esta sou eu, a que se doa, a que oferece sem pedir para receber. A incondicional. E foi assim, vivenciando um sentimento singular, que me senti preparada para confessar:

Passei horas apenas observando seu rosto e você não soube. Acordei da realidade para viver um sonho que eu mesma criei, que moldei da forma mais bonita. Pensei em mil e uma maneiras de demonstrar como me sinto agora, mas só o que consegui fazer foi me perder em tentativas e na escolha das palavras. Sou boa com palavras, você sabe. Mas elas me faltaram. Sim, no instante exato em que tomei coragem, elas me faltaram. Então preparei cuidadosamente uma antologia sentimental. Logo eu, que lhe parecia tão inacessível, agora preciso emprestar palavras para te fazer entender. Se, em meio à dúvida, você imaginar nem que seja por apenas um instante que elas são para você, terá valido a pena.

Coisas do Destino

março 28th, 2008 by Beta | No Comments | Filed in Viagens da Alma

Eu acredito no Destino, mas acredito no livre-arbítrio também. Costumo dizer que o Destino dá as cartas e quem joga sou eu. Sim, tenho jogado bastante ultimamente. Não sei no quê isso dará, mas tenho certeza de que sairei vencedora, de uma forma ou de outra. Quando se fala em Destino a tendência é acharmos que tudo está escrito, que somos uma espécie de marionete criada pelo tal Deus para seu próprio divertimento, porque Ele não deve ter nada melhor para fazer lá no céu ou onde quer que se encontre. Pois bem, creio que não seja nada disso.

Imagine: você acorda pela manhã e o sol está lá fora, sim, mas se você não abrir a janela e a cortina o seu quarto continuará escuro. Ou não. Você pode acender a luz e pronto.

A vida é assim, as coisas são colocadas ao nosso alcance e nós decidimos se as agarramos. O problema é que tudo que é bom a gente agarra com tanto cuidado, que às vezes acaba deixando escapar. Então, quando isso acontece, não adianta colocar a culpa no Destino. O vacilo terá sido seu.

Fragmentos

março 25th, 2008 by Beta | No Comments | Filed in Contos, Viagens da Alma

I
Minha alma fugiu. De repente enojou-se da selvageria desse mundo e então, quando dei por mim, ela já não estava mais aqui. Procurei com empenho, vasculhei cada canto, mas em vão. Minha alma não quer mais estar onde eu estou. Assim, vazia, debrucei-me na janela e fiquei observando a chuva. Os pensamentos estavam livres, mas não se manifestavam, porque nada aqui funciona direito sem minha alma. E essa chuva que não passa e esse meu corpo gelado (sou um cadáver, estou sem alma) e meus olhos lacrimejantes que podem ser comparados à vidraça por onde as gotas de chuva escorrem, tornam essa típica manhã fria de março ainda mais “nonsense”. Sim, nada aqui tem sentido. Já não me reconheço, olho no espelho e só o que vejo é a figura de uma mulher estranha, trêmula. Espero que ela se arrependa e decida voltar, pois não consigo viver além de existir assim, sem alma.

II
Foi em uma dessas tardes chuvosas e convidativas à monotonia que ela se descobriu. O espelho, antes apenas mais um detalhe da decoração de sua imensa sala, passou a chamar-lhe à atenção. Minto. Não é isso. Não era o espelho, mas aquela imagem que ele refletia. Já não tinha os cachinhos negros, o olhar sereno, as sardas. Agora tudo se resumia a um furacão: os cabelos ruivos, os olhos misteriosos, a face enrugada. Nem tanto, exagero meu, pois ela se cuidava. Passou horas observando aquela em quem havia se transformado quase sem perceber. Então virou-se e caminhou sem pressa rumo à porta principal. Saiu. Deixou para trás um passado que vivera sem plenitude, para valorizar o presente do qual, no futuro, pretendia se orgulhar – o que talvez não aconteça, mas para quem se descobriu, isso não importa.

Continho de Páscoa

março 23rd, 2008 by Beta | No Comments | Filed in Datas Especiais, Rapidinhas

Sentiu-se dividida entre a morte e a vida, então nasceu para dentro, onde não se comemora – a Páscoa não a revigora.

Madrugada quente

março 18th, 2008 by Beta | No Comments | Filed in Viagens da Alma

Está calor. E há algo que me incomoda no calor que não chega à compreensão alheia, que pouco tem a ver com o quente mas que queima de uma forma tão voraz que chego a ouvir os meus próprios pensamentos me falando com eloqüência sobre coisas que jamais existiriam se gelado fosse o meu coração. É a combinação perfeita de fascínio e medo, como se eu estivesse realmente diante de um fogo que no momento seguinte consumiria meu corpo em chamas – eu sei da dor, mas sua luminosidade é tanta que fica difícil resistir à tentação de me entregar, talvez até para que tudo fique mais claro. Padeço desejando o vento que pode tanto apagar quanto abrasar o meu receio.

Na madrugada o calor é mais intenso, exatamente pela falta do sol. As horas demoram para passar mas nem as noto, mantenho-me concentrada em cada momento vão que conquistou tamanha importância capaz de me fazer colocar minha própria sanidade em jogo. Então eu me jogo, envolta nesse calor que vem da alma e que deveria me aquecer mas se mostra revoltado. Penso sem pressa, me perco dentro de mim para depois me encontrar ali naquele mesmo lugar de sempre que ainda não sei onde fica. É uma confusão de incertezas que se chocam como cavaleiros em uma batalha medieval – uma deve morrer para que a outra sobreviva, até que se depare com uma terceira e dessa vez talvez não tenha tanta força para vencer.

Num copo d’água me embriago de uma refrescância que pouco dura. Está calor.

Solidão

março 16th, 2008 by Beta | 2 Comments | Filed in Viagens da Alma

Toda mulher quer ser amada. Toda mulher sabe que, por mais bem-sucedida que seja em outros fatores da vida, não estará totalmente realizada enquanto não for amada. Você acorda antes mesmo que o Sol, preenche seu dia com milhares de afazeres e, mesmo assim, se deita à noite com aquela impressão de que algo faltou… Às vezes faz isso acompanhada mas, no meio da madrugada, olha para o lado e se pergunta até que ponto aquela situação está lhe fazendo bem. Então, quando percebe que o que deseja de verdade é o sentimento e não apenas a sensação, tenta disfarçar e esconder o rosto, para que a lágrima rolando não seja notada. E não adianta negar, mentir para si mesma, porque nada substitui o amor. Pelo contrário; quanto mais ele faz falta, mais você tem certeza de que trocaria qualquer coisa (ou tudo) por ele. Cuidado com a solidão. Pior é sentir-se sozinha mesmo quando não se está.

Você tinha tempo, mas já não importa.

março 14th, 2008 by Beta | 2 Comments | Filed in Viagens da Alma

[antes]

Você podia ter feito tudo quando tinha tempo. Você devia ter feito tudo enquanto era tempo. Daz vezes em que me disse tudo aquilo que eu quis ouvir, restou apenas o desejo de permanecer em silêncio. É engraçado, você entende, essa coisa quase surreal do saber sem nunca ter aprendido e a vontade imensamente louca de jamais desviar o olhar ainda que com medo de encarar. Mas você podia ter feito tudo quando tinha tempo, quando as horas não passavam assim tão rápido, quando os dias eram calmos e as tempestades serviam apenas para afugentar a calmaria do momento e atrair minha inspiração e preceder a bonança. Era isso, olha só – era e já não o temos mais. Ainda assim, você podia ter feito tudo quando tinha tempo, mas não fez. Sabe por quê? Exatamente porque você tinha tempo.

[depois]

Acho que todos nós, seja em um momento ou outro da vida, passamos por uma (ou mais de uma) fase em que todo e qualquer desejo passa a ter prazo de validade. Essa fase pode durar muito ou não, nem é essa a questão, mas o fato é que ela incomoda. Ao menos está me incomodando agora.

Confesso que eu queria desejar mais os meus desejos nesse instante. Talvez eu tenha desaprendido a ver a beleza de certas coisas – não, acho que não. Talvez eu tenha optado por uma cegueira momentânea, sem perceber, porque o que tanta gente me diz ser tão belo eu não consigo enxergar. Azar o meu que permanecerei aqui coçando os olhos e chacoalhando minha própria cabeça na intenção de organizar idéias que me fizeram muito feliz quando surgiram, mas que então já fazem parte daquele amontoado de idéias que desisti de colocar em prática por uma simples razão: elas não me atraem mais.

E será que eu sou mesmo esse ser inconstante ou apenas estou? Essa é a única pergunta para a qual eu realmente gostaria de encontrar uma resposta agora, mas tudo bem. Daqui a dois minutos ela não terá mais a menor importância mesmo.

Quem sabe ainda sou uma garotinha

março 1st, 2008 by Beta | 2 Comments | Filed in Viagens da Alma

É tão mais fácil ser uma garotinha! Eu penso nisso sempre, me preocupo em lembrar-me disso sempre, mesmo não encarando a maturidade como algo que machuca. Eu consigo fugir de mim quando vou de encontro àquela que eu fui e, pasmem, também consigo voltar segura e consciente quando bem quero – ou preciso. Ser uma garotinha não me impede de ser mulher, apenas faz de mim a combinação de tudo o que necessito para realmente ser.

Sim, eu sou agora porque já fui.

Mas há momentos na vida em que a gente não pode ser uma garotinha, momentos esses em que é preciso agir como mulher e confesso ser isso o que me incomoda: a obrigação. Quero poder escolher quando ser adulta ou não, é um direito que eu gostaria de possuir e que me fosse dado sem questionamentos, assim como toda criança deveria ter direito a saúde e educação. Não é assim que funciona, eu sei.

Então eu fico aqui revoltada com as regras impostas por quem eu desconheço, emburrada, irritadiça – faço bico. Posso até mesmo ser chamada de infantil no momento exato em que esperam de mim uma reação oposta. E, se eu quero ser apenas uma garotinha, isso não significa que não desejo que esperem o que quer que seja de mim?! Ah, mas é claro, de nada importa a minha vontade agora, porque é hora de ser mulher.

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