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Archive for fevereiro 28th, 2008

Mais uma vez

28 fev

“Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno ao meu pescoço, uma voz que cante baixo e pareça querer me fazer chorar. Eu quero um calor no inverno, um extravio morno de minha consciência e depois sem som, um sonho calmo, um espaço enorme, como a lua rodando entre as estrelas…” (Fernando Pessoa)

Mais uma vez chegou a noite e aqui estou, perdida entre pensamentos e a indignação comigo mesma, por não ter realizado aquilo que planejei. Mais uma vez a vida me assustou e me senti indefesa, como uma criança que se perde em meio à multidão – então senta em um canto qualquer e chora, assim, desesperadamente. Mais uma vez tive que exorcizar meus fantasmas, aqueles com os quais quase me acostumei, justamente por estarem sempre dentro de mim. Mas eles sempre voltam e, mais uma vez, ele voltaram.

O mundo quer me abraçar, me dar colo, mas eu fujo. É uma fuga injusta, tanto para quem precisa de proteção quanto para quem quer proteger. Eu sou injusta, sempre fui, não irei mudar. Eu sei, eu sinto. Parece que está tudo predestinado quando, na verdade, não está. Apenas é mais fácil pensar assim, aceitar que o destino está escrito e eu não tenho uma borracha por perto. Também não quero ir à busca de uma, isso me cansaria. Não quero me cansar. Como um clichè, tenho me cansado demais.

Enquanto lá fora tudo ocorre, aqui dentro nada acontece. Só os fantasmas, indo e vindo, como as ondas de um mar revolto em pleno verão. Mas, fora isso, nada acontece. Amanhã estarei de ressaca sem ter me embriagado, o que é ainda pior. Pudera eu me afogar naquele mesmo mar, permanecer submersa e inconsciente. Não dá. Sou consciente até demais. E sempre haverá alguém disposto a me salvar – só que eu não quero ser salva. Me deixem assim, nem lá nem cá, nem longe nem perto. Porque, mais uma vez, chegou a noite e eu fui embora.

(do fundo do baú)